sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Johannes Vermeer

A nova ordem que se instaurou nos Países Baixos a partir da trégua, firmada em 1609, trouxe diferenças culturais importantes entre o sul, sob domínio da corte católica espanhola, e as províncias do norte, protestantes. A inexistência da devoção a imagens nos cultos protestantes desvinculou a Arte da Igreja. Ainda, a ausência nas Províncias Unidas de uma cultura palaciana propiciou o desenvolvimento de uma arte mais singela e de temáticas do cotidiano da classe média , diferente da monumentalidade e dos temas eruditos (históricos e mitológicos) da arte do sul.

No norte, o desenvolvimento de um forte comércio interno e internacional e da indústria artesanal enriqueceu a classe média, em especial os comerciantes e industriais. Essa burguesia rica concentrava o poder político e econômico determinava o gosto por temáticas artísticas do cotidiano (como pintura de gênero e natureza morta) - enquanto no sul a cultura cortesã espanhola sufocou em parte a expansão de uma cultura burguesa.
A opulenta classe média holandesa encomendava quadros para decorar suas casas e o tamanho das pinturas teve que ser adequado à escala dessas habitações - as grandes dimensões, comuns em quadros da corte, ficaram destinadas apenas aos prédios públicos. Os temas relacionados a vida cotidiana perduraram e, no Barroco holandês, intensificou o olhar intensivo e subjetivo sobre aquilo que nos parece banal, chegando ao conceito de Realismo.

Nesse ambiente nasceu Vermeer, um dos pintores mais proeminentes desse contexto. Atribui-se a sua autoria menos de 35 pinturas, que não puderam ser datadas com segurança até hoje. Essa escassa produção deve-se à meticulosidade e lentidão com que pintava seus quadros que, apesar de bem valorizados, foram insuficientes para quitar suas dívidas e garantir o sustento de seus 15 filhos - mesmo sendo que ele desenvolvia as atividades de comerciante e avaliador de obras de arte paralelamente ao trabalho de ateliêr.

Ele viveu em Delf, e a representação da vida doméstica era o tema básico da escola de Delft. Diferente das obras barrocas de Rembrandt, cujos aspectos subjetivos tendem ao místico e estão vinculados ao tratamento dado à iluminação mais contrastante, as imagens criadas por Vermeer costumam apresentar um momento íntimo de uma ou duas figuras no interior de suas habitações em um momento iluminado do dia, como vemos em A leiteira. A sua técnica era de extremo naturalismo nas representações das texturas e do brilho de materiais preciosos, e seus quadros são concebidos numa tonalidade clara e num cromatismo intenso e harmônico, como vemos em Mulher sentada ao virginal. O resultado desse domínio artístico e intelectual na elaboração de seus quadros é a simplicidade surpreendente na percepção do conjunto. Em A tocadora de viola, por exemplo, o olhar aproximado e instantâneo da cena deixa evidente a concepção da obra como representação de um fragmento fugaz da realidade cotidiana de seus personagens. O que há de mais singelo em nosso cotidiano, aos olhos de Vermeer, transforma-se em algo de forte carga espiritual, tanto em suas pinturas de gênero como em suas poucas obras de paisagem, como a Vista de Delft.


A leiteira, 1658-1660


Mulher sentada ao virginal, 1672


A tocadora de viola, 1669-1672


Vista de Delft, 1660-1661

O reconhecimento da qualidade artística da obra de Vermeer por historiadores só ocorreu na década de 1860, quase dois séculos após a sua morte.


Frans Hals

Frans Hals nasceu entre 1581 e 1585, em Antuérpia, Flandres. Incluído na escola holandesa do barroco, dono de um estilo naturalista e de uma técnica precursora do impressionismo, foi o verdadeiro criador do retrato coletivo em pintura.
Poucos anos depois de seu nascimento sua família mudou-se para a cidade holandesa de Haarlem, onde provavelmente trabalhou como aprendiz do pintor maneirista Carel van Mander. Por volta de 1610, começou a retratar a sociedade burguesa da Holanda a partir de uma estética realista, rica em cores.

A contribuição de Frans Hals para a arte foi sua habilidade para captar a expressão passageira. Seus quadros podiam retratar músicos, ciganos ou cidadãos respeitáveis, mas todos eram trazidos à vida, geralmente rindo e levantando uma caneca. Sua marca registrada são os retratos de homens e mulheres apanhados num momento de alegre diversão.
O quadro mais famoso de Hals, Laughing Cavalier (Cavaleiro Sorridente), retrata um tipo matreiro com um sorriso nos lábios, brilho nos olhos e bigode airosamente curvado para cima. Hals obteve esse ar de gabolice principalmente com o efeito das pinceladas. Antes dele, os realistas holandeses se orgulhavam de disfarçar as pinceladas para esconder o processo de pintura, aumentando assim o realismo do quadro. A “assinatura” de Hals eram golpes do pincel, fortes, à maneira de esboço.

Laughing Cavalier, 1624
Em sua técnica “alla prima”, que significa “de imediato em italiano, o artista aplica a tinta diretamente na tela, sem uma camada  de preparação, e termina o quadro com essa única aplicação de tinta. Embora as pinceladas de Hals sejam claramente visíveis de perto, assim como nas telas de Rubens e Velázquez, formam imagens coerentes à distância e captam com perfeição o imediatismo do momento.
Ele captou seu The Merry Drinker (Alegre Bebedor/Beberrão) congelando um momento de vida, os lábios separados como se prestes a falar, a mão no meio de um gesto.

The Merry Drinker, 1627.
Hals transformou a rígida convenção do retrato de grupo. Em seu Banquet of the officers of the St George Civic Guard (Banquete dos Oficiais da Companhia de Guarda São Jorge), o artista não retrata os componentes da milícia como guerreiros, mas como festeiros num alegre banquete. Antes dele, a tradição mandava que os artistas pintassem os membros do grupo como numa foto da classe, dispostos como efígies em fileiras bem demarcadas, Hals sentou-os em poses relaxadas em volta de uma mesa, interagindo naturalmente, com cada expressão facial individualizada.
[BANQUETE+DE+OFICIALES+DE+LA+MILICIA+CÃ VICA+DE+SAN+JORGE+EN+HAARLEM.jpg]
Banquet of the officers of the St George Civic Guard, 1627

Embora a cena pareça improvisada, a composição tem um equilíbrio de poses e gestos, unidos pelo vermelho, pelo branco e pelo preto. As diagonais barrocas de estandartes, faixas e golas pregueadas reforçam a sensação de orgulho da farra de jovens.
Os retratos sociais, alegres, das décadas de 1620 e 1630, revelam o talento de Hals para avivar, e não preservar, o modelo. Infelizmente, seu final de vida foi triste. Embora retratista famoso, o amor ao vinho e à cerveja mostrado em seus quadros transbordou para sua vida pessoal. Com dez filhos e uma segunda mulher brigona sempre com problemas com a polícia, Hals “enchia a cara” toda noite, segundo um amigo seu, e morreu de ostracismo.

Barroco Holandês

Embora a Holanda fizesse fronteira com Flandres, os dois países não podiam ser mais diferentes, tanto cultural como politicamente. Enquanto Flandres era regida pela monarquia e pela Igreja Católica, a Holanda - ou Países Baixos - era um país independente, democrático e protestante. Nos rígidos e despojados templos protestantes, a arte religiosa era proibida e as fontes normais de mecenato - Igreja , corte e nobreza - tinham se acabado. O resultado foi uma democratização da arte, tanto em relação aos temas quanto aos proprietários. Pela primeira vez, os artistas foram deixados à mercê do mercado. Felizmente, a próspera classe média tinha mania de colecionar arte. Em 1640, um visitante de Amsterdã observou: "Quanto à arte da Pintura e à afeição do povo pelos quadros, acho que nenhuma outra se interpõe entre eles. Antes, todos, em geral, se empenhavam em adornar suas casas pagando altos preços. Até açougueiros, padeiros e ferreiros compravam quadros. Em decorrência, surgiu uma pintura de alta qualidade e com um número de artistas que chegava a 500 pintores, somente trabalhando com naturezas-mortas."

A natureza morta surgiu como gênero de pintura nos Países Baixos pós-Reforma. Embora considerada uma forma inferior em outros lugares, o século XVII foi o período alto da natureza-morta na Holanda, onde os artistas atingiram um extraordinário realismo retratando objetos domésticos. A natureza-morta era emblemática: as pinturas vanitas mostravam símbolos como crânios e velas fumegantes representando a transitoriedade da vida. As paisagens holandesas eram tratadas com realismo, geralmente com um fundo de altas nuvens num céu cinzento.